Respingos quentes de suor se estilhaçam no painel motorizado daquela coisa. O único chão ao qual me dá direito, nesse instante, é artificial, é limitado e não me oferece verdes paisagens e nem a oportunidade d’eu saudar pelo caminho alguns de meus conhecidos ou promover em meus desafetos a ilusão de uma saúde sólida e de ferro. Atrevido que sou, desafio a máquina e seus números quadradamente vermelhos, digitalmente híbridos. Resisto ao seu aço: cinco quilômetros impostos e percorridos. O espelho logo a frente me entrega a imagem refletida: um ser úmido, encharcado de coisas que não se contam facilmente, de poemas inacabados, de projetos pelas metades, de amores instáveis e de amizades que serão para sempre. Há quanto tempo estou aqui, correndo, ouvindo essa música e pensando em todas essas coisas? Não há que se xingar ou amaldiçoar a esteira, afinal muitas vezes, fora dela, também se percorre vários caminhos para depois, e só depois de algum tempo, descobrir que não saiu do lugar nem mesmo um milímetro. As coisas são assim mesmo__ pode-se até criar lendas ou mitos, mas não há como evitar de se caminhar em vão de vez em quando...mesmo tendo o sangue grosso e quente nas veias. Em contrapartida nos surpreendemos ao aprendermos coisas importantes que nos poupam milhas e milhas. Entender isso já nos economiza ao menos tempo. Não quero aprender nada que dissolva meus sonhos, não quero andar em trajetos que não valham a pena, não quero amigos e bebidas falsificados, não quero aprender a amar o lado gótico da vida, apesar de sempre respeitá-lo. Alguém sabe o jeito certo que se caminha? Vale a pena caminhá-lo?
Chegue mais tarde hoje, meu amor, quero ficar mais tempo com a criatura em que me transformo quando estou sozinho. Quem sabe quando você voltar já saberei responder a todas as perguntas que me fez e que ainda não te dei respostas. Quem sabe eu possa te mostrar certa lógica quando eu te digo que alguém escreveu torto em minhas poucas linhas retas. Quem sabe eu possa explicar por que eu gosto tanto de reticências.
Quem sabe eu possa te falar de coisas que vivem por debaixo da minha pele.












