Março de 2009 por Will Lukazi

''Já fui Caminho, já fui Paisagem e hoje eu sou Destino ''

POST 126

sábado, 30 de abril de 2011.






Religiosamente ele comparecia àquele balcão de bar às 21:00 horas de Segunda, Quarta e Sexta na rua Gradenor de Melo, onde era o antigo ‘’zé do buteco’’ que sucumbiu ante a modernidade. Já havia 2 anos que eu freqüentava o local e nesse período eu sempre o via por lá. Vez ou outra eu ia ali para beber, assistir uma TV ou simplesmente ficar de bate-papo com algum amigo que por ali também passasse. Aquele homem, porém, seguia um ritual todos os dias, algo mecânico, de exatidão assombrosa como um relógio de torre inglesa. Chegava, olhava à sua volta, se sentava e em seguida fazia o pedido de sempre. O garçom por sua vez vinha com um copo bem dosado de uísque e gelo. Entre um gole e outro, um sorriso quase invisível esboçava-lhe o rosto em determinado instante. Eu imaginava que ele estaria se lembrando ou imaginando alguma coisa enquanto bebia pleonasticamente a goles bem lentos todo aquele líquido. Eu nunca saberia ao certo. A gente sempre acha a vida alheia engraçada__nos intriga de alguma forma diferente. Nunca tive um porquê plausível ou real motivo para perguntá-lo, pois ele era um homem discípulo do silêncio, jamais o havia visto em mesa com demais pessoas ou dialogando nem que fosse por algum tempo com um ou com outro. Um dia resolvi conversar com o garçom que há muito me conhecia e perguntei o motivo daquele homem tanto beber durante quase toda a semana envolto naquela face amargurada, naquela nuvem de tristeza opaca que lhe cobria tudo de cinzas. Que espécie de dor seria aquela? O garçom só me disse que aquele homem se chamava Éder, devia ter uns 52 anos, tinha uma esposa e com ela 3 filhos, todos já casados e com família. Morava numa casa confortável, num bairro sossegado, tinha dois carros na garagem e trabalhava na área da Engenharia Civil. Escutou até dizer que ele já havia trabalhado na coordenação de mais de 40 importantes obras espalhadas pelo país. Disse ainda que freqüentava aquele bar já havia uns 7 ou 8 anos. Mal o garçom acabara de falar e eis que lá vinha de novo aquele homem__21:00 horas cravadas. Toda a cerimônia novamente realizada e seguiu identicamente o protocolo dos outros dias: a chegada, a bebida, os goles lentos, o silêncio, o sorriso solitário e a ida. 

Foi então que,tomado por uma curiosidade quase que mortífera, passei a investigar de perto por 3 longos anos aquele homem e descobri que ele tinha uma vida à, princípio, perfeita com sua esposa, filhos, netos e o restante da família. Nada havia que justificasse nele toda aquela carga emocional negativa que ele emanava no interior daquele bar. E, podem ter certeza, nem alcoólatra ele era e não freqüentava nenhum círculo mais suspeito. 

Hoje completa 8 anos que eu continuo indo naquela, que considero que seja, parte de minhas dependências. O velho Éder também perdura por quase 15 anos seguindo aquela misteriosa e intrigante rotina. O garçom já é outro, o antigo havia morrido numa tentativa de assalto, onde acabou baleado bem no centro da cidade há alguns anos.  Éder sempre me via por lá ele nunca tentara comigo nem um princípio de diálogo, se mantendo fiel à sua crosta magmática de mistério e rocha derretida. 

Mas acreditem, em todo esse tempo fui aprendendo a ler sinais e identificar pistas invisíveis em ‘’locais de crime’’. A minha alma e minha presença, durante todo esse tempo, foi se misturando ao ambiente proposto por todo aquele sofisma até que consegui enxergar a fórmula oculta que originava todo aquele comportamento. Ali eu era o cientista gritando ‘’EUREKA’’. Concluí que o velho Éder, independente de ter ou não motivos, seria triste toda a vida, pois era nostálgico por opção e exalava exatamente isso e mais nada. Nenhuma definição encaixaria perfeitamente e nem lhe caberia isso, pois tudo era muito simples e complicado__o velho Éder não tinha nada de mais e nem de menos. Apenas se comportava da maneira para a qual se sentia projetado. Nem ele saberia dizer ou explicar ou mesmo admitir absolutamente nada. Ele simplesmente vinha até ali e por ali ficava , talvez se deleitando cavalgando sobre alguma imaginação matreira. Ele apenas seguia os movimentos do espírito como um surfista que acompanha o balançar das ondas para não se afogar. Não havia respostas definidas__ele era do jeito que era e pronto. Misterioso dentro do seu não-mistério, adepto a ter seus próprios enigmas, como nos livros de Oscar Wilde. Mas eu também não preciso estar certo disso.






NÃO É NECESSÁRIO CLICAR NAS IMAGENS

18 Comentários:

нєllєи Cαяoliиє disse...

Will,
as vezes pessoas se tornam assim como Éder simplesmente para que outras pessoas ao redor não experimentem ou descubram o lado escuro que habita nele,muitas pessoas talvez não seria capaz de compreender o que talvez existe dentro dele,e o que pode parecer banal para nós,pra ele é todavia uma dor sem fim.
Um ótimo fim de semana pra ti!
Beijos

Fie disse...

Eu não sou nostálgico por natureza, mas sou inconstante (e muito!).

Nos diversos momentos nostálgicos e mais amargurados que a minha inconstância me levou algumas vezes eu até fiquei assim bem parecido com esse personagem...

Mas existem desses momentos que eu até consigo estranhamente sorrir e me sentir feliz. ;p

Isso deve ser loucura minha mesmo. Sei lá. Pelo menos sou feliz em minha inconstância. Talvez o personagem também seja, de certa forma, feliz em sua amargura. ^^

Néia Lambert disse...

Olá Will, obrigada pela visita ao ETERNO, um prazer tê-lo como meu seguidor, estive lendo seu texto, também vou acompanhar seu blog, gostei muito daqui.

Bom final de semana, um abraço.

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Caro amigo

Seguir os movimentos
do espírito,
é aproximar-se do mais
interessanate que a vida pode ser.

Que o amor seja plenitude em ti.

Will Lukazi disse...

Olá Aluísio! Tudo bem contigo?

Pena que se prendeu apenas a este detalhe e nada mais para expor seu comentário, pois ao visitar teu blog pude perceber o quão hábil é com as palavras, porquanto não tive como não seguí-lo tamanha a sensibilidade com que trata as palavras e aspectos de nossa vida cotidiana. Como eu gostaria que alguém como você analisasse todo o meu texto.

Quanto ao velho Éder, eu imaginei nele um senhor de espírito conturbado, mas é como disse o final do texto '' eu também não preciso estar certo disso''.

Obrigado, meu amigo, espero que volte sempre e comente mais. Pelo que vi no teu espaço eu serei figurinha repetida por lá várias vezes.

Super Abraço !

Marcos de Sousa disse...

Ser triste por opção deve ser a forma mais deprimente e feliz de tristeza. Deprimente porque estás triste porque queres. Feliz pois pode abandoná-la quando quiser...

Gostei do blog e estou lhe seguindo...

Lucimere disse...

A rotina, ando fascinada por ela, já que me parece algo inatingível... (digo no sentindo de ser regrada)

A nossa mania de procurar resposta para coisas, acaba nos impedindo de concluir que nem tudo tem resposta, apenas, é o que, que é e pronto.

p.s.: eu amo abacate com açúcar

Van disse...

Nós , humanos , sempre buscamos nos ocultar ou nos aprofundar nas sutilezas de nossos segredos mais ermos e profundos , para que a realidade , por vezes nos esqueça ou que apenas não perturbe por um tempo. Temos nossas masmorras indviduais , todos nós !

Amado Will , hoje encerrei o projeto do Universidade de Sentidos , botei a placa de fechado lá porque não há mais nenhum sentido em continuar a poesia por lá. Mas , por outro lado , como a vontade ainda vive em mim para continuar (e espero que para sempre) , inaugurei um novo espaço e aqui deixo o convite para que você apareça por lá sempre que quiser e com quem mais quiser : www.vidainversoepoesia.blogspot.com

Grande Beijo !

P.S : Mas o Meus Escritos continua , firme e forte também : www.meusescritoseoutraspalavras.blogspot.com

Will Lukazi disse...

Olá Hellen! Tudo bem contigo ?

Sem dúvida o ser humano é um insondável mistério. Possuímos nossos pontos claros e escuros, nosso plano real e nossas 5ª dimensões. A gente nunca sabe ao certo o que se pode esperar dos outros e nem de nós mesmos.

Ótimo fim de semana pra vc tbm.

Super Beijo !

Will Lukazi disse...

Olá Fie! Tudo bem contigo?

ah, a inconstância! Eu também já trilhei e muito mesmo por esse caminho. A única que eu tinha convicção era de que nada era para sempre...cruzes...rsrsrsr....

Confesso que algumas características do Éder foi fácil para mim descrevê-las...muito fácil.

Estranho que eu também de vez em quando sinto falta de períodos estranhos da minha vida.

Creio que se alguém apresentasse ao Éder um sentido maior às coisas ele teria entrado em depressão profunda...

Entendo perfeitamente o que diz.


Obrigado pelo comentário, Fie. Sua parcela de inconstância, como você mesmo disse, acrescentou um ângulo diferente aqui em nosso espaço.

Super Abraço !

Will Lukazi disse...

Olá Néia! Tudo bem contigo?

De nada! Eu é quem agradeço pela visita, comentário e por estar seguindo o BSW. Esperamos que volte sempre ! Bom de semana também.

Super Abraço!

Will Lukazi disse...

Olá Marcos! Tudo bem contigo ?

Filosofou geral agora hein..rsr...

Se reparar bem, o Mundo está cheio de pessoas que são tristes por opção. Agradeço por estar seguindo o BSW. Esperamos que volte sempre.

Super Abraço.

Will Lukazi disse...

Olá Lucimeire! Tudo bem contigo?

Olha, Lucimeire, posso te falar que me identifiquei e muito com o teu comentário. Realmente algumas coisas são como são e pronto ( acreditem, tem coisas assim mesmo ). A gente é que tem manias de achar explicação em tudo, temos essa necessidade de achar sempre lógica nas coisas.

Abacate com açucar?! eca !!!!!!
ahauaasasuh...Taí uma coisa que não tenho explicação: apenas não gosto e pronto...hauauhauaaauss...

Gostei muito de você aqui, volte mais vezes tá bom...

Super Beijo !

Will Lukazi disse...

Olá Van ! Tudo bem contigo?

Gostei da expressão''masmorras individuais'', pois acho que é exatamente isso.

Pôxa Van! Que pena! Eu que testemunhei o nascimento do UNIVERSIDADE agora recebo esta triste notícia. Fazia tempos que eu não passava por lá, mas nem por isso eu o havia esquecido. Está sendo como eu não ter me despedido direito de alguém na última vez que eu o vi. Mas eu tenho absoluta certeza de que você tem suas razões e sabe o que está fazendo. Eu tenho certeza disso.
Na oportunidade estarei visitando sim o novo Blog. Pode contar comigo.

Super Beijo !

Van disse...

Não fique triste , Will ! Porque , no tempo e na oportunidade certa , o Universidade virará um livro de poesias , com certeza.

Ele continua lá , você pode comentar ainda o que não comentou , não vou tirá-lo do ar. Só não mais publicarei poesias porque ele perdeu completamente o sentido da existência e também a inspiração para a qual havia sido criado , entende ? Não há mais sentido real publicar ali... Tentei mudá-lo fisicamente , mas mesmo assim ele ainda me fazia lembrar de tudo que já foi , a alma dele é uma , a essência e isso não se muda , não tem jeito... Por isso abri as portas ao novo e te espero lá , para apadrinhar mais um espaço meu...Me sinto abandonada por vc (rsrsrsrsrs) , algo assim do tipo "perdeu o encanto" por minhas palavras , sabe ?

Mas a gente é amigo e eu te perdôo por isso ! Ainda mais porque vc tem o desfecho do meu conto nas mãos e não vejo a hora de publicá-lo no Meus Escritos...quero ver , tô curiosíssima. Com saudades também.. Grande Beijo.

www.meusescritoseoutraspalavras.blogspot.com

www.vidainversoepoesia.blogspot.com

Will Lukazi disse...

Olá Van! Tudo bem contigo?

Poxa! Espero que este dia chegue !
As poesias que lá estão com certeza merecem figurarem entre as páginas de um livro, sim.

Eu sei bem quando diz que ele perdeu o sentido, minha amiga. Eu sei bem.
Conte sempre comigo em teus novos projetos, vanvan, quero sempre estar por perto.

ô van, não diga isso que eu fico muito triste ( de verdade ) eu não perdi o encanto. É que pra te falar a verdade, além d'eu estar trabalhando e desenvolvendo 2 projetos que em breve você estará a par, não sei se notou, mas o BSW deu uma expandida, graças a Deus, e isto tem me tomado, muito tempo mesmo. Como pode observar são vários os comentários que respondo, o BLOG DA SEMANA ganhou um novo perfil, além do blog ter ganhos novas págnas. Lembro-me de quando eu e você éramos soberanos nos coments. Era bem mais fácil. Mas agora, graças a Deus, são várias as respostas que tenho que enviar, entende. Tiro um dia para postar, um dia pra responder os comentários e outro dia para comentar nos blog´s. Quando comento, faço em dezenas de blog's, por isso comento apenas uma vez por blog....

Eu nunca vou te esquecer minha amiga e seus coments inaugurativos de toda manhã...devo muito a você e sua bondade para comigo vanvan..

te gosto muito muito...

Me aguarde, tá bom.


Um super Beijo !

Anônimo disse...

Creio que algumas pessoas já nascem tristes. E escolher não ser pode ser uma luta constante ou eterna. Ou conviver com isso também pode com o passar do tempo não causar dor, só "estado".
Expressar pode ser em forma de um ritual,assim como o do personagem.
Nascer triste não é uma escolha. Ser triste talvez sim.

Abraço amigo!

Will Lukazi disse...

Olá amigo anônimo! Tudo bem contigo?

Tem razão quando diz que algumas pessoas escolhem ser tristes__uma pena. O Éder eu creio que é desse que você citou que faz do modo como vive um ritual a fim de que todos saibam de sua tristeza....

Tentar ser feliz ainda acho se o melhor remédio....

Super Abraço!!

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